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A Arte de Roubar

Sermão do Bom Ladrão
Pregado em 1965, na Igreja da Misericórdia em
Lisboa - Portugal

Evangelho de Jesus Cristo segundo S. Lucas. Um dos mal feitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: “Se és Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!” Mas o outro o repreendeu: “Nem sequer teme a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Para nós isto é justo; recebemos o que merecem os nossos crimes, mas este não fez mal algum”. E acrescentou “Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu reino!” Jesus respondeu-lhe: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso”. (Lc. 23, 39-43)

Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo mar Eriteu a conquistar a Índia: e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava, roubando os pescadores, repreendeu muito Alexandre de andar em tão mau oficio: porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois Imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito poder , os Alexandres. O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões de maior calibre e de mais alta esfera; os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento distingue muito bem São Basilio Magno. “Não só são ladrões diz o Santo, os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar para lhes colher a roupa, os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título, são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo; os outros se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam”.

Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: “Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos”. Ditosa Grécia que tinha tal pregador! E mais ditosa as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas. Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter roubado um carneiro; e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ões triunfantes?