A Arte de Enxergar
Sermão da Quinta-feira da Quaresma
Lisboa - 1669
Certa vez, Jesus caminhava com os seus discípulos até a cidade de Jerusalém. No caminho encontrou um homem cego de nascença. Os discípulos perguntaram: “Mestre, quem foi que pecou para que esse homem nascesse cego, ele ou os seus pais?” Jesus respondeu: “Nem ele e nem os seus pais, mas isso aconteceu para que manifestasse nele hoje as obras de Deus.” Dizendo isso, cuspiu no chão, fez uma espécie de lodo e colocou nos olhos dos cego. A partir desse momento, o cego começou a enxergar.
O homem que não tinha olhos e viu, já está curado. Os que tem olhos e não vêem, estes são os que precisam de remédio.
Cristo viu um homem cego, sem olhos. Nós havemos de ver muitos homens cegos com olhos.
Cristo viu um homem sem olhos, que não via e logo viu. Nós havemos de ver muitos cegos com olhos, que não vêem, e também poderão ver, se quiserem.
Deus me é testemunha que escolhi esse assunto para ver se se pode curar hoje alguma cegueira.
O cego que hoje viu Cristo, padecia de uma só cegueira. Os cegos que nós havemos de ver, sendo muitas as suas cegueiras, não as padecem senão as gozam e amam.
Não é cegueira a soberba? Não é cegueira a inveja? A cobiça? A ambição? A pompa? O luxo? A mentira?
Eu vou em uma casa e vejo cavalos, liteiras. Vejo muitos empregados, uns com uniforme, outros sem. Vejo jóias e baixelas. As paredes vejo-as cobertas de ricas tapeçarias.
Mas também vejo que os cavalos comem às custas do lavrador. Vejo também que as jóias, as baixelas foram adquiridas com tamanha injustiça e crueldade que o ouro e prata derretidos haviam de verter sangue.
Vejo que as paredes estão vestidas de preciosas tapeçarias e que os miseráveis que foram despidos para vesti-las estão nus e morrendo de frio.
Vejo também que as pedras desta mesma casa, desde o telhado até o alicerce estão chovendo os suores dos trabalhadores a quem foi negado o salário.
Senhores, não será tudo isso cegueira?
Se lançarmos os olhos por todo o mundo veremos que todo ou quase todo é habitado de gente cega.
Aristóteles divide e enumera as paixões do coração humano e nos diz que são onze. Mas todas elas se reduzem a duas capitais: amor e ódio. E estes dois afetos são dois pólos em que se resolve o mundo, por isso tão mal governado.
Se os olhos vêm com amor, o urubu é branco, se com ódio o cisne é negro; se com amor o demônio é formoso, se com ódio o anjo é feio.
Por isso se vêem louvadas as incapacidades com mando, a ignorância graduada e a ciência sem ética. Pode haver maior perdição na sociedade?
Oh, quem me dera ter agora neste auditório o mundo todo. Quem me dera que me ouvira agora Espanha, França, Alemanha, Roma! Príncipes, Reis, Imperadores e Monarcas do mundo: vedes a ruína de vossos reinos? Vedes as aflições e misérias de vossos vassalos? Vedes as violências, as opressões, as pobrezas, as fomes, as guerras, as mortes, os cativeiros, a assolação de tudo? Ou vedes ou não vedes! Se o vedes como não o remediais? E se não o remediais, como o vedes? Estais cegos!
Ministros... ministros... ministros da república, do estado, da justiça, da guerra, do mar e da terra: Vedes as obrigações que pesam sobre os vossos ombros? Vedes os descalabros dos governos? As injustiças, os roubos, os subornos, as lágrimas dos pobres, os clamores e os gemidos de todos? Ou vedes ou não vedes? Se o vedes, como não o remediais? E se não o remediais, como o vedes? Estais cegos!
Ah, Senhor, que não quero persuadir aos homens nem a mim, pois somos tão cegos, a única coisa que quero é dirigir-me a vós. Não olheis Senhor para as nossas cegueiras, lembrai-vos dos nossos olhos e que ao menos um cego saia hoje daqui iluminado. Ponde em nós esses olhos misericordiosos e abrandai com eles a dureza de nossos corações. Iluminai a cegueira de nossos olhos, para que possamos ver a miséria de nossas almas, sejamos dignos de ser iluminados pela vossa graça, para que possamos viver eternamente na sua glória. Assim seja!
