A Arte de Viver
Sermão do Primeiro Domingo do Advento
Pregado no ano de 1650, na Capela Real
Todos vamos embarcados na mesma nau, que é a vida, e todos navegamos com o mesmo vento, que é o tempo; e assim como na nau uns governam o leme, outros mareiam as velas; uns vigiam, outros dormem; uns passeiam, outros estão assentados; uns cantam, outros jogam, outros comem, outros nem uma coisa fazem e todos igualmente caminham ao mesmo porto; assim nós, ainda que não pareça, insensivelmente vamos passando sempre e avizinhando-se cada um a seu fim: porque, conclui Santo Ambrósio, tu dormes e o tempo anda. Disse pouco em dizer que o tempo anda; porque corre, voa; mas advertiu bem em notar que nós dormimos; porque tendo os olhos abertos para ver que tudo passa, só para considerar que nós também passamos parece que os temos fechados.
Considerando este contínuo passar do homem, diziam os sábios da Grécia que todo o homem que chega a ser velho morre seis vezes: e como? Passando da infância à puerícia, morre a infância; passando da puerícia à adolescência, morre a puerícia; passando da adolescência à juventude, morre a adolescência; passando da juventude à idade de varão, morre a juventude; passando da idade de varão à velhice morre a idade de varão; finalmente passando de viver por tanta continuação e sucessão de mortes com a última que só chamamos morte, morre a velhice. Se o sol que sempre é o mesmo, todos os dias tem um novo nascimento e um novo ocaso, quanto mais o homem por sua natural inconstância tão mutável que nenhum é hoje o que foi ontem, nem há de ser amanhã o que é hoje.
Pedida e tomada a conta a todo gênero humano, olhará o Senhor para a mão direita, e com o rosto cheio de glória e alegria, dirá aos bons: “Vinde benditos de meu Pai, e possuí o reino que para vós está preparado desde o principio do mundo. Quem serão os venturosos sobre que há de cair esta ditosa sentença? Bendito seja Deus, que todos os que estamos aqui presentes o podemos ser se quisermos. Assim seja, amém”.
